RUÍNAS ALADAS

Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.



Domingo, Agosto 27, 2006

HOJE

Ando meio assim... As palavras se perdem quando sentimos as coisas seguindo seu caminho silencioso em direção ao presente. Não posso querer mais nada, embora saiba que isso é ainda insuficiente para coisa alguma. Os dias apenas, um atrás do outro. Nada além dos dias em seu fluxo. Ando precisando cada vez menos das palavras, pois tenho atos beckettianos a serem encenados diáriamente num palco presente de cotidianeidade. Não! Não estou em desespero existencial! Os dias são essa minha essência presente. Meus sentimentos, meus afetos, minhas dores, não são nada de insuportável, pelo contrário. Vou seguindo. Hoje, vou seguindo as possibilidades na medida em q se tornam realidade. Projeto meu presente. Às vezes não cumpro promessas, mas não morro. Sigo. E seguindo vou continuando este fluxo de idéias, de desejos, de mémórias. Parte e pedaço abstrato. Coisa e causo. E as fileiras de vocábulos... deixo num canto latente.

(L. F. Calaça | 27/08/2006)

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Sábado, Agosto 12, 2006

OLHOS TRÊMULOS

Sou aquela parte indivisível de mim mesmo
que às vezes pulsa, às vezes cala, às vezes some
e me escondo nas máscaras de pele e sangue
como redes de vasos, silêncio e continuação.

É como o amor, que a gente sonha e deixa rastos
para que outros amores não se esqueçam dos beijos
nem dos passos abortados na corda prima envolvendo
pescoço e fala, desejos, falanges, dores mínimas.

Ainda luto com meus demônios invisíveis, tontura
refazendo a rota incerta de um tempo póstumo, hábito.
Mas sou meu agora onde encontro outros beijos-olhos
e assolo meus dias, fugindo encontrado, num outro aqui.

(L. F. Calaça | 12/08/2006)

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Terça-feira, Agosto 08, 2006

INCÊNDIO DOS CORPOS LUARES

Não sei se jogo o refrão daquela música densa
daquele amor que me vem feito de gemidos e sopros.
Como figura, sentença. Como miragem-delírio.
Como uma abraço que enlaça pescoço, corpo e visgo.

Não sei se jogo canção tormenta ou tango em chamas
atravessando salões, sexo trompete e violino atado
no segmento escuro de portas corpos milimétricos.
Compasso, colapso lapso, tua boca amarga e doce.

E na minguante da Lua, e no poente dos astros
arrasto meus pequenos ferrolhos de sonhos, gritando
o alto silêncio das bocas que tocam o eclípse celeste
das brisas e mares, dos corpos fornalha acesa.

(L. F. Calaça | 08/08/2006)

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Quarta-feira, Agosto 02, 2006



MALA NA MAO & ASAS PRETAS
Autor: PIVA, ROBERTO
Editora: GLOBO
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA-POESIA
ISBN 8525041939
Brochura 1ª Edição - 2006 - 172 pág.

Neste segundo volume das obras reunidas de Roberto Piva recolhe sua produção editada entre 1976 e 1983. São quatro livros de poesia - 'Abra os olhos & diga Ah!', 'Coxas', '20 poemas com brócoli' e 'Quizumba' - acrescidos de manifestos que o poeta divulgou em 1983 e 1984, agrupados sob o título 'O século XXI me dará razão'. Os trabalhos reunidos nesta obra, retomando a temática do amor a ser conquistado a qualquer preço, embaralham os gêneros, ao fundir poesia e prosa de forma inovadora no âmbito da literatura brasileira, ao mesmo tempo que nos levam a conhecer, principalmente, as possibilidades do corpo e das relações afetivas. Paralelamente, podem ser vistos como uma leitura singular de nosso modernismo literário. Em torno do corpo, o sexo é experimentado como a via por excelência de acesso à arte. As relações afetivas propostas, os laços de amizade homoerótica para o direito ao pleno gozo, são um poderoso e incômodo contradiscurso ao moralismo reinante. Com relação ao modernismo, Piva praticamente desintegra seus conteúdos iluministas e nacionalistas, criando uma via alternativa, mais hedonista, anárquica, alucinada, sem expectativas de progresso ou de um futuro nacional, mas sobretudo radical, ao propor como vértice supremo a superação contínua da vida e da arte simultaneamente, para atingir o sublime e o desconhecido.




ESTRANGEIRO NA LEGIAO, UM
Coleção: OBRAS REUNIDAS, VOL 1
Autor: PIVA, ROBERTO
Editora: GLOBO
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA-POESIA

FICHA TÉCNICA
ISBN 8525040339
Brochura 1ª Edição - 2005 - 200 pág.


O livro enfeixa a produção inicial de Piva, compreendendo seus dois primeiros livros - 'Paranóia', de 1963, e 'Piazzas', de 1964, ano do golpe militar -, o poema O de Fernando Pessoa, publicado em 1961 sob a forma de plaquete e jamais recolhido em livro desde então, e os 'Primeiros manifesto's. Como destaca o organizador dessas obras reunidas, o crítico Alcir Pécora - que já havia organizado para a Editora Globo a publicação da obra, igualmente inusitada e transgressiva, de Hilda Hilst -, o traço predominante nos poemas desse período seria dado pelo viés blasfematório (em diálogo com autores como Whitman e Pessoa, e com a literatura beat), ao que se seguiria uma etapa psicodélica e experimental (característica dos livros que comporão o segundo volume, publicados entre a segunda metade da década de 1970 e o começo dos anos 1980) e um terceiro momento, mais místico e visionário (terceiro volume), que se estende até os dias de hoje. A despeito do caráter um pouco esquemático dessa divisão, ela ajuda a entender seja algumas alterações de rota no percurso criativo de Piva, bem como certas linhas de continuidade no conjunto de sua obra. Nessa medida, o vitalismo de extração romântica, o vínculo tenso com o surrealismo - que em Piva, à diferença do que ocorre em outros autores, não se degrada em mera retórica do não-sentido - e a intertextualidade vertiginosa são alguns dos elementos que podem ser mobilizados para a compreensão do que se funde na fornalha desses versos. 'Um estrangeiro na legião' contém ainda longo e elucidativo posfácio escrito pelo poeta e crítico Cláudio Willer - companheiro de geração de Roberto Piva - e uma boa bibliografia ao final, úteis para o leitor ávido por mais informações sobre uma das vozes mais importantes no panorama da poesia brasileira contemporânea.

Fonte: www.livrariacultura.com.br

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